Cacau de Brito: Quem é o suspeito?
Rio - A polícia vem passando por série de testes nos últimos anos em função do agravamento da crise social e por causa da diversidade de comportamento da população. Neste sentido, é importante saudar a intenção do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, em querer rever os currículos de formação dos policiais, para que antigas técnicas investigativas sejam substituídas por ações policiais mais modernas e democráticas.
Uma das práticas ultrapassadas é a suspeição do indivíduo. Quem é o suspeito? Alguns policiais garantem que o antigo estereótipo (negro, pobre, com roupas modestas) está em extinção, pois estão adotando hoje a ‘atitude suspeita’, ou seja, os sinais de comportamento das pessoas indicam que ela pode suspeita.
Essa nova linha de ação policial não tem sido praticada como deveria. No cotidiano da periferia do Rio, jovens pobres e negros continuam vítimas preferenciais do controle policial, principalmente quando estão em grupo. Existe uma pré-determinação contra eles, ou seja, “se estão juntos é uma formação de quadrilha”.
Outra cultura policial persistente é a violência. Somente com o emprego da tortura é que os acusados confessam, de acordo com esta cultura. Trata-se de prática bárbara, medieval, ainda presente em muitos rincões e até unidades policiais de cidades pós-modernas, que lidam com alto grau de direitos conquistados.
Penso que, devido à nossa formação histórica, nos novos currículos das academias de polícia não podem faltar estudos da população pobre, suas culturas, seus modos de comportamento, a fim de que o futuro policial aquilate o perfil social dos habitantes da cidade. Afinal de contas, cerca de 40% da população fluminense é afrodescendente. Outra medida é o estudo aprofundado dos direitos humanos, que, aliado a uma perspectiva antropológica do cidadão, poderia contribuir para sofisticarmos a técnica de ação policial.
Uma polícia inteligente, técnica e qualitativa é uma polícia que exibe qualidade de abordagem em suas técnicas investigativas.
Cacau de Brito é advogado
Fonte: O Dia
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